Ser professor é para poucos

Considerações sobre a Neuroaprendizagem

Nas duas últimas semanas de Maio, aconteceram algumas discussões no mais novo canal de comunicação da Labor Educacional: o Labor Lab. Os eixos temáticos abordados foram sendo discutidos numa consonância singular. Os elementos da inteligência emocional, a relevância da neurociência na aprendizagem, a importância de se considerar as soft skills tanto nas práticas pedagógicas bem como na formação do docente e dos educandos foram destaques no diálogo.

Em meio a esse contexto, um comentário de uma integrante do grupo, Inês Cozzo, foi fator motivador para uma breve entrevista, na qual a profissional da neuroaprendizagem pôde compartilhar algumas reflexões acerca das emoções e de seu protagonismo no ato de aprender.

Inês é formada em Psicologia e há anos tem se especializado em Neurociências aplicadas à aprendizagem. Publicou algumas obras, dentre elas destacam-se: “Neuroaprendizagem e inteligência emocional” e “Manual das múltiplas inteligências”.

Acompanhe a seguir as reflexões e as dicas de materiais que a entrevistada compartilhou.


Adriana (Labor Lab): Sabemos que não existe aprendizagem sem emoção. Pensando nisso, há uma relação entre a neurociência e as soft skills?

Inês: Não sei quem inventou a expressão “soft”. As habilidades comportamentais que envolvem a inteligência emocional, de soft não têm nada. São complexas e difíceis de serem desenvolvidas.

Primeiro vamos falar da aprendizagem. Não existe aprendizagem sem emoção. Quando um evento chega para o nosso cérebro, ele chega e a informação fica alocada nas regiões límbicas (memória de curto prazo) e só quando a gente dorme é que elas são levadas para a memória de longo prazo. Acontece que se quando a informação chega, ela não tem nenhum tipo de emoção, sensação, sentimento envolvido, não existe produção de acetilcolina (neurotransmissor mais importante para a memória) e, consequentemente, não haverá a aprendizagem de longo prazo. Sem essa substância, não há como a informação ser levada da memória de curto prazo para a de longo prazo. Quando o evento chega, se houve produção de acetilcolina, a molécula de informação fica grudada nela e, à noite, quando dormimos e entramos em estado REM de sono, a acetilcolina relaxa, permitindo que a molécula de informação seja levada para a memória de longo prazo nas áreas corticais.

Se há emoção, existe a possibilidade de todo esse processo ocorrer. É preciso também uma boa qualidade de sono e sol (melatonina – regula o bom sono) durante o dia. Aí sim há a consolidação dessas memórias. Por isso não existe aprendizagem sem emoção.

O cérebro não nasce pronto. Ele vai se formando, principalmente as áreas corticais, e, no sistema neocortical, há as funções executivas. Uma delas é o controle inibitório. Permite que uma ação, uma atitude, um comportamento sejam barrados antes que aconteçam.

A outra é a tomada de decisão. Tudo isso está dentro do que se chamam “soft skllis”. A memória operacional, de trabalho. Essas funções todas dependem de um córtex já 100% formado, principalmente o pré-frontal. E, como o cérebro não nasce pronto, ele vai se construindo ao longo da vida. Ele só está formado entre os 27 e os 30 anos. Até que isso ocorra, nós tomamos péssimas decisões. Temos dificuldade com o controle inibitório, temos dificuldade de fixação de informações pela memória operacional.

A respeito da emoção na aprendizagem: se houver uma emoção, qualquer uma, necessariamente haverá uma memória de longo prazo. Só que, por exemplo, em uma aula de História, o professor faz algo que me expõe. Eu me sinto exposta, insegura, com medo, desconfortável, ou seja, a emoção medo é a chamada. Ela não é ruim. Nenhuma emoção é ruim. Elas têm de ser administradas e conseguimos aprender a fazer isso. Nesse caso, haverá uma aprendizagem, sem dúvida, só que não para aprender História. O aprendizado estará atrelado a ter medo do professor, a não gostar da matéria, a ter medo que me chamem para falar sobre algo. A aprendizagem sempre vai acontecer. Mas quando ela é percebida como ruim, não vai ser sobre o que desejamos que seja, não será sobre o conteúdo que queremos fixar. Será uma aprendizagem ruim sobre a escola, sobre aula, sobre o processo de aprender. Isso é fixado para o cérebro.

Quando queremos uma aprendizagem de longo prazo do conteúdo, é fundamental que a emoção seja percebida como uma emoção positiva, ou um sentimento. A alegria, o medo, a tristeza, a raiva e o nojo são emoções de base. Com algumas delas, na escola, não vamos querer trabalhar.

Além das emoções, podemos trabalhar também com sentimentos.

A diferença entre emoção e sentimentos é que a primeira é biológica, é a forma como meu organismo sente o evento. Por isso ela tem função de sobrevivência, não pode ser erradicada, só pode ser elaborada, administrada.

Sentimento é construção sobre a emoção. É como eu expresso o que senti. Como significo, interpreto e conto para o mundo essa emoção. Ele é culturalmente aprendido.

Considerando o processo de ensino e aprendizagem, o melhor sentimento a ser eliciado é a curiosidade [o interesse].


Dica: Como eliciar o estado de curiosidade em uma pessoa?

VÍDEO (no Telegram)

https://t.me/joinchat/n6p-M0mSGpE2ZGQx


Adriana (Labor Lab): No contexto pandêmico em que vivemos, as aulas on-line têm ocorrido há mais de um ano. O cansaço e o desgaste tanto do professor quanto do aluno são evidentes e inevitáveis. Consequentemente, a concentração do estudante é afetada. Comente essa situação na perspectiva da Neurociência.

Inês: A Revista Harvard Business Review publicou uma pesquisa, logo no início da pandemia, quando tudo o que era presencial foi para o on-line. Essa pesquisa, embora esteja bem completa, não menciona um problema que ocorre quando as coisas acontecem na frente da tela de um computador ou de um tablete ou de um smartfone: o fato de que algumas câmeras ficam fechadas e o professor não sabe como ele está sendo recebido.

Quando o processo evolutivo aconteceu, ele focava principalmente em aspectos baseados na sobrevivência. Praticamente tudo que está programado no nosso DNA para fazer, ou seja, o que a nossa neurologia vem programada para fazer ou serve à reprodução ou à sobrevivência. Uma delas é o pertencimento. Esse sentimento é absolutamente vital para o ser humano, para nossa espécie. Câmeras fechadas me impedem de saber se eu estou sendo bem recebida pela comunidade a qual eu pertenço e a qual eu entrego o que dá meu ganha-pão – o meu trabalho.

Por outro lado, se a câmera fica aberta, alguns aspectos também devem ser considerados. Então recomendo o vídeo a seguir:



Inês: Câmeras abertas provocam em mim uma hiper estimulação cerebral, elementos de atenção demais chegando para o sistema nervoso e, é claro, uma hora ele entra em colapso. É exaustivo. Por outro lado, se as câmeras estão fechadas e, particularmente, se a câmera fechada é de alguém relevante para mim, cuja opinião me importa muito, também entro em estresse, ou o que estamos chamando hoje de tecnoestresse.

Dica: Tecnoestresse causa ansiedade e depressão em jovens...

https://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-notici...


Adriana (Labor Lab): Como entrevistadora, assisti ao vídeo e, nele, pode-se perceber que as práticas de videoconferências têm gerado um cansaço extremo, que chegou até a ganhar um nome específico: Zoom fatigue.

São destacados alguns provocadores em relação a essa questão. Aspectos esses que estão atrelados ao discurso de nossa entrevistada, tanto que ela sugere o link para os leitores do nosso artigo:

“- estresse, porque todos estão olhando para você (uma tentativa de demonstrar interesse para o interlocutor)

- situação de conversa com as pessoas visualizando-as dos ombros para cima (limitação de panorama)

- o cérebro não trabalha em condições normais (há elementos que não são percebidos: respiração, gestos corporais, outros marcadores de comunicação não verbal, não são vistas as mãos, etc)

- muitos rostos devem ser interpretados ao mesmo tempo, assim como os ambientes atrás deles

- desvio de atenção (correções que o professor vai fazendo em si mesmo, pois ele se vê o tempo todo)

- distrações externas (mexer no celular, por exemplo; tentação de fazer outras coisas, barulho dos familiares, etc)

Diante desses fatores geradores de estresse e autocrítica, a Revista Harvard Business Review publicou um manual com dicas para evitar as distrações. Estas são algumas sugestões destacadas:

“- evitar fazer várias coisas ao mesmo tempo

- ter intervalos entre as reuniões (aproveitá-los para andar, beber, água, descansar)

- sugerir que todos desliguem a câmera ou minimizem a tela em algum momento para se concentrarem apenas na voz (ajuda o cérebro a descansar)

- determinar se a videoconferência é realmente necessária ou se há outras opções para desenvolver determinada atividade.”


Falar de questões que envolvem a educação e a aprendizagem significativa para os estudantes é uma preocupação de educadores e profissionais da área. O importante é que as vozes sejam ouvidas, o conhecimento seja uma premissa e a generosidade de compartilhar saberes faça parte da vida de todos os profissionais engajados. A Labor acredita no potencial da educação para transformar vidas.

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